Amazônia em paz


por Flávio Dino, originalmente publicado na Carta Capital em 11/03/22

 

Em dias tão terríveis e ameaçadores, em que tiros e bombas substituem a boa política e a fraternidade, mais uma vez se realça a importância da paz. Para que tal ideal se concretize, múltiplas controvérsias devem ter adequado encaminhamento, entre as quais as relativas ao acesso a fontes de energia e a recursos naturais de um modo geral. Ou seja, as questões ambientais são vitais para que tenhamos paz e preservação da vida no planeta. Para além da imperativa prioridade à resolução da grave crise em curso, precisamos manter a perspectiva estratégica, de longo prazo. E, nesse plano de análise, não há dúvida da imbricação entre a Amazônia e a luta pela paz mundial. Com efeito, uma Amazônia cada vez mais apta a prestar serviços ambientais e ecossistêmicos dará enorme contribuição para reduzir conflitos em nível global.


Sua preservação, portanto, é uma responsabilidade de todo o planeta, e principalmente do Brasil, que tem em seu território a maior parte do bioma. Diante de tamanho desafio, a visão mais comum restringe-se à ideia de que para obter sucesso bastaria impedir queimadas. Ações repressivas são imprescindíveis para qualquer política ambiental. Mas não vamos resolver os problemas da Amazônia só com polícia, sob o risco de ficarmos literalmente apagando incêndios. A única forma sustentável de preservar a Amazônia é garantindo uma vida digna às pessoas que aqui vivem.


Fiquei muito feliz de ter percebido, em conversas recentes com empresários, que cresce a compreensão de que sem a agenda ambiental não há verdadeiro progresso. Não se trata de um adereço, mas de parte nodal de um projeto para o país. Inclusive aproveitando a enorme extensão do bioma amazônico em nosso território como um ativo econômico. Não basta para isso investir em projetos pilotos, de grande importância, porém insuficientes para uma população de 30 milhões de habitantes. O principal é como efetivamente relacionar a Amazônia com as cadeias globais de valor, de modo prioritário, intensivo e sustentável.


Só teremos o máximo de floresta em pé se as pessoas que nela vivem tiverem oportunidades para melhorar de vida.


Partindo dessas premissas, como presidente do Consórcio de Governadores da Amazônia Legal, assinei em fevereiro um memorando de entendimento com a ONU, para ampliar a colaboração entre os entes subnacionais e o Sistema das Nações Unidas.


Alguns irão perguntar: mais um documento? Sim, mais uma prova de que seguimos buscando caminhos sustentáveis para a Amazônia. Essa perseverança é essencial e só com ela se alcançam resultados. O oposto disso é a desistência, o silêncio, a acomodação, o fatalismo quanto ao fracasso.


Ano passado, lançamos o Plano de Recuperação Verde (PRV), coordenado pela economista Laura Carvalho, baliza para todos os diálogos que mantivemos na COP-26 e seguiremos mantendo. O PRV trata de projetos sustentáveis, infraestrutura verde, inovação e tecnologia, assim como de comando e controle.


Tenho muita confiança de que, com o fim do ciclo de trevas na política brasileira, avançará o acordo que fizemos com a Leaf Coalition, uma aliança internacional de empresas privadas e os governos dos Estados Unidos, Noruega e Reino Unido, em prol do desenvolvimento sustentável. Do mesmo modo, possuo a convicção de que será derrubada a vil sabotagem ao Fundo Amazônia, implementada a partir de 2019, por causa de desvarios na esfera federal, sobejamente conhecidos.


Teremos, daqui a alguns meses, a missão de liderar um novo projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil, e isso só existirá com foco na economia verde, especialmente na Amazônia.


Para o Brasil voltar a se colocar como voz política relevante para o mundo logicamente é preciso primeiro assumir suas responsabilidades. Qualquer observador da cena internacional sabe que a Amazônia figura em primeiríssimo plano quando o mundo olha para a nossa Nação. Sonhamos também que, neste futuro próximo, o Brasil volte a contribuir com um espírito mundial fundado no diálogo e na cooperação, sem a imposição de vontades e de ganhos das nações mais fortes sobre as mais fracas.


Quando olhamos para indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pessoas nas periferias das grandes cidades da nossa região, sabemos que o atendimento das suas necessidades é vital para que haja paz na Amazônia. E esta paz é muito importante para a paz mundial. Que será verde, ou não será paz verdadeira.