Brasil, potência cultural


por Flávio Dino, originalmente publicado na Carta Capital em 27/02/22

 

O Brasil tem diversos atributos que, quando bem aproveitados, nos colocam entre as principais potências do mundo. Possui uma das maiores populações do planeta, portanto um mercado interno vasto que por si só garante a atividade de empresas de grande porte. Extenso território com abundância de recursos naturais: minerais, fontes de energia e diversidade de paisagens para a economia do turismo. Fruto da interação dessa população diversa com este território vasto, o Brasil possui uma das culturas mais singulares no concerto das nações.


A Cultura era responsável, em 2015, por 3% do PIB mundial, segundo um levantamento da Unesco. Empregava, à época, mais gente que a indústria automobilística. Hoje certamente os números são maiores, com o aumento explosivo da fruição de conteúdos audiovisuais, facilitada pela popularização de smartphones.


Nosso país tem nesse segmento da cultura um dos caminhos para seu desenvolvimento econômico. Exemplos a serem seguidos não faltam. Olhemos o caso da Índia, que criou uma forte indústria cinematográfica, com Bollywood produzindo mais de mil filmes por ano, ou a Coréia do Sul, produtora do primeiro filme estrangeiro a ganhar um Oscar na categoria principal, com Parasita em 2020, e também com a série mais assistida da história do Netflix (Round 6).


O Brasil iniciou um processo semelhante com a criação da ANCINE, que financiou de forma estruturada a cadeia produtiva do audiovisual no país. Sem dúvida, é papel do governo que conseguir superar o fascismo voltar a dar a essa política o peso merecido.


Nossa diversidade cultural também garante um diferencial ao país no âmbito da economia do turismo, como pólo de atração de visitantes. Com um dos litorais mais extensos do planeta, de clima favorável praticamente todo o ano, temos grandes atributos no segmento Sol e Praia. Mas a diversidade cultural nos dá um diferencial ainda maior, estimulando o turista a passar mais dias no país para a vivência de nossas experiências culturais. Nossos megaeventos culturais têm destaque mundial. Infelizmente, a pandemia vem apresentando desafios novos ao segmento. Já vivemos o segundo ano sem Carnaval no Brasil, fato sem registro anterior em nossa história.


No Maranhão, criamos formas de fomentar os artistas e produtores, mesmo com a necessária redução dos eventos por segurança sanitária. Desde que teve início a pandemia, já investimos R$ 75 milhões em apoio a artistas, grupos e produtores culturais, por meio de editais da Lei Aldir Blanc e com recursos próprios do estado. A estes valores, se somam os R$ 150 milhões em projetos apoiados pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura, entre 2015 e 2021.


São recursos que têm efeitos multiplicadores, pois os profissionais da Cultura, com seus eventos e gastos, impulsionam uma vasta rede de comércio e serviços. Essa compreensão é essencial, inclusive à vista dos vulgares ataques às políticas culturais, que as veem como se fossem desperdícios com atividades supérfluas.


Outra linha de investimento cultural do Governo do Maranhão é a revitalização do Centro Histórico de São Luís, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade por sua beleza arquitetônica. Com o programa Nosso Centro, estamos readequando prédios para receber moradias, sedes de empresas, comércios, órgãos públicos e centros culturais, dando nova vida à área.


Temos mais de 20 prédios já entregues e outros 20 em obras, sendo quase metade em parceria com empresas, em uma espécie de PPP (Parceria Público-Privada). Essa dinâmica está criando um círculo virtuoso e quando voltarmos a ter fluxos turísticos normais, São Luís certamente estará melhor para receber turistas de todos os cantos.


A pandemia nos tem feito buscar outras formas de viver. São novas maneiras de manter vínculos afetivos e continuar trabalhando, estudando. Também a cultura vai seguir encontrando novas formas de ser produzida e difundida, de permitir trocas simbólicas entre as pessoas, construindo o tecido social que nos une. E, ao mesmo tempo, é vital frisar a elevada capacidade de geração de trabalho e renda por meio da economia da cultura, além de ser parte insubstituível para o desenho do lugar do Brasil no mundo e de exercício do nosso “soft power”.