O Brasil e a nova cena mundial


por Flávio Dino, originalmente publicado na Carta Capital em 19/03/22

 

A guerra em curso na Europa, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, envolvendo indiretamente OTAN, EUA e China, explicita a face de um mundo que hoje é multipolar. Múltiplas forças políticas e econômicas atuam simultaneamente em cada conflito, defendendo seus interesses, com destaque para acesso a fontes de energia. É um jogo complexo, que tem frequentemente derivado para trágicos conflitos bélicos.


Com o fim da Guerra Fria, houve a ilusão de supremacia eterna dos Estados Unidos. Um historiador norte-americano chegou inclusive a antever o "fim da história". Na tese dele, com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), imperaria só uma potência sobre o mundo, os Estados Unidos, com seus valores culturais e sistema econômico. Com isso, cessariam os conflitos que marcaram a história da humanidade até aqui.


Trinta anos depois, o que se vê é exatamente o contrário, um mundo multipolar. Desde então, cresceram em importância econômica e, portanto, política, nações em claro desenvolvimento, notadamente a China, mas também a Índia e a Rússia novamente fortalecida após o fim da URSS. O Brasil chegou a figurar nesse rol de potências emergentes, mas as ingerências externas e as sabotagens internas, vivenciadas desde 2013, atrasaram a nossa caminhada.


Com o crescente poderio de suas empresas, a China vem caminhando para ser a maior economia do planeta na próxima década e tem ampliado sua influência para vários continentes. Suas relações comerciais a tornam um player importante em todos os continentes, a começar pelo próprio Estados Unidos, maior consumidor de seus produtos. Mas as transações comerciais também a ligam com África e América Latina, com relevantes relações também com o nosso país, a exemplo das nossas exportações de ferro e de grãos.


O Brasil deve retomar sua voz ativa no concerto das Nações. Maior país da América do Sul, um forte mercado interno, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, com reservas importantes de petróleo e enorme capacidade de geração de energia renovável, o Brasil deve ter lugar em qualquer mesa de negociação que trate sobre o futuro do planeta. Não fosse por todos esses atributos, seria por ter em seu território o mais diverso e extenso bioma do mundo, a Amazônia, sem o qual não existe segurança climática global.


Infelizmente, o Brasil abriu mão de seu papel desde o impeachment inconstitucional contra a presidente Dilma. Durante o governo Lula, o Itamaraty sublinhou um histórico de protagonismo da diplomacia brasileira. Lembremos do Barão de Rio Branco e de Osvaldo Aranha. Este, na condição de ministro das Relações Exteriores de Getúlio Vargas, teve grande destaque durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, sendo o articulador do rompimento da América Latina com os países do eixo nazifascista e grande entusiasta das soluções multilaterais para conflitos internacionais. Foi pelas mãos dele que o Brasil se tornou destacado signatário da criação da ONU, o que até hoje nos garante o direito de sermos o primeiro orador nas suas Conferências.


Contudo, lamentavelmente essa honraria tem sido pouco aproveitada já que a atuação diplomática do Brasil no mundo está prejudicada pela total falta de credibilidade do atual presidente, apegado a exóticas teorias e práticas. Portanto, nosso primeiro passo para retomar o papel de destaque do Brasil é conseguirmos derrotar o obscurantismo que hoje se coloca na chefia de Estado e, por conseguinte, na nossa diplomacia.


E temos de voltar a olhar para a Amazônia e as suas populações. Assumirmos nossa responsabilidade sobre seu desenvolvimento sustentável é passo essencial que temos de dar para sermos respeitados na comunidade internacional, pois é a Amazônia nosso principal patrimônio para qualquer observador mundial.


Teremos mais áreas preservadas da floresta quanto mais ela se tornar um vetor da economia verde. O que é importante não só para os 30 milhões de habitantes que ali vivem quanto para toda a humanidade, pois a Amazônia é indispensável para a garantia da manutenção da vida na Terra. Uma Amazônia cada vez mais apta a prestar serviços ambientais e ecossistêmicos também dará enorme contribuição para reduzir conflitos em nível global, na medida em que se mitiguem crises relativas ao meio ambiente.


Nossa luta patriótica é para que o Brasil possa retomar seu papel de protagonista no mundo, em tantos debates. Para isso, nós brasileiros e brasileiras temos de enfrentar a próxima quadra da história sempre buscando construir a paz verdadeira, que é aquela que advém da justiça social. Só enfrentando nossos desafios para gerar, de modo sustentável, e distribuir riqueza em favor de toda a população, é que vamos voltar a ter o nosso lugar de destaque na cena mundial.