Todos Irmãos


por Flávio Dino, originalmente publicado na Carta Capital (21/1/22)

 

Um dos textos que mais me marcou nos últimos tempos foi a Encíclica “Fratelli Tutti”, lançada ano passado pelo Papa Francisco. Uma das lideranças mais influentes do mundo, o Papa faz uma análise sobre os dias atuais e a defesa de suas ideias. Documento essencial, portanto, para todos que têm fé em um futuro melhor para a humanidade.

O Papa fala das dores do tempo presente, como a solidão, isolamento e sobrecarga de trabalho – violentamente precarizado com as novas tecnologias que deveriam aumentar o bem-estar mas têm permitido novas formas de exploração dos trabalhadores, como compelir a jornadas extenuantes, de domingo a domingo. “Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência”. Essa solidão acaba sendo mais profunda pela falta de alteridade, de olhar para o outro.

O texto foi lançado em meio à pandemia da Covid, que “deixou a descoberto as nossas falsas seguranças”. A trágica experiência da pandemia mostrou que somente poderemos encontrar saídas se fizermos isso em comum. O combate ao vírus deixou muito cristalina a ideia de que estamos no mesmo barco e não existe um “porto seguro” puramente individual. Da mesma forma, só conseguiremos ser felizes e construir um país mais justo quando ele for bom para todos.

A parábola do Bom Samaritano na Bíblia nos ensina que devemos ajudar ao próximo. E o “próximo” não é apenas o familiar, o amigo querido. Vejamos o caso do samaritano que ajudou um judeu (Lucas, 10:25-37). Ele estava próximo e se fez presente, ajudando o viajante caído mesmo que de culturas e povos diferentes.

O Papa Francisco nos fala dessa fraternidade, atitude de tratar o próximo como a um irmão. Sem ela, corrompem-se a igualdade e a liberdade que completam o trinômio do ideário humanista. Estar livre não pode derivar a uma suposta autossuficiência absoluta, como se não fossemos interdependentes. E a igualdade só se materializa com a concepção solidária de que algumas pessoas só terão oportunidades semelhantes aos demais se forem tratados de forma diferente, a fim de que tenham amparo e impulso.

Tratar todos como irmãos e buscar Justiça Social não são “meras utopias”, alerta o Papa Francisco. “Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade”. Neste caminho, a política é uma atividade humana essencial. O Papa reconhece isso em sua Encíclica: “Convido uma vez mais a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum”.

O Papa Francisco diz que, finalizado um período governamental, a verdadeira avaliação que fica para um governante não é “quantos me aprovaram?” ou “quantos votaram em mim?”. Mas: “Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei?”

Pensando nas perguntas do Papa Francisco, ao final de sete anos de mandato à frente do Governo do Maranhão, sinto que valeu a pena tanta dedicação. Esta semana, vi lágrimas nos olhos de um cidadão do município de Marajá do Sena ao receber, de um programa habitacional do Governo do Estado, a casa com a qual sonhou a vida toda. E, como tal momento, tenho milhares de outros abraços, palavras, sorrisos, que integram a minha memória para sempre. Sobretudo lembrarei dos momentos belos com as crianças e jovens, pois eles são enormes sementes de esperança. Lágrimas rolarão sempre quando contar a história do menino, tão apaixonado pela escola nova, que nela queria dormir. Como diz o Papa Francisco: “com renúncias e paciência, um governante pode ajudar a criar aquele poliedro bom onde todos encontram um lugar.”

Neste 2022, desejo e lutarei para que o Brasil seja capaz de construir esse espaço de encontro, superando o extremismo nocivo e pecaminoso que governa o país. A negação dialética desse extremismo reside em praticar uma política de afetos, respeitar o povo, apresentar propostas viáveis e sérias, escutar atentamente os clamores da sociedade. Não vamos nos nivelar aos adeptos do ódio e dos ressentimentos. Assim venceremos as eleições e assim conquistaremos as vitórias mais importantes: justiça e paz para todos os irmãos e irmãs do Brasil.